Todos pareciam abduzidos, não estavam presentes, só o corpo ali.

Todos pareciam abduzidos, não estavam presentes, só o corpo ali.

(Por Sandra Rosenfeld)

Moro no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, onde o carro é extremamente necessário. Raramente vou ao Centro e mais raramente uso o ônibus do Condomínio. Ontem fiz as duas coisas, fui ao Centro no ônibus do condomínio. Nada demais além do susto que literalmente levei quando entrei no ônibus, já em cima da hora dele sair e praticamente todos os passageiros estavam nos seus celulares, não falando, mas olhando ou digitando, ou seja, eles estavam nas redes sociais e de mensagens.

Não pude deixar de dar uma parada antes de sentar para observar isso. Tive uma sensação estranha que piorou quando sentei e a moça que já estava sentada, digitando no seu celular, nem ao menos desviou o olhar para ver quem sentava ao seu lado, cumprimentar com um “bom dia” então, nem pensar!

Eu fiquei chocada, de verdade. Todos naquele ônibus moramos no mesmo condomínio e nem ao menos um “olá” foi dado, nem na hora que sentei, nem durante todo o trajeto e nem quando ela desceu antes de mim. Pensei em cumprimentar, mas desisti da ideia, me pareceu uma intromissão e acho até que ela podia levar um susto.

Tudo muito estranho… “Isso não é normal”, eu pensei. Estava uma manhã linda de inverno, o céu azul, a orla da Barra é belíssima, o mar estava deslumbrante com piscinas na beira, água calma e de um verde transparente contrastando com o céu e a areia branca da praia. Mas ninguém me pareceu perceber essa beleza, essa maravilha da natureza, da vida.

Nada contra as redes sociais, mas a meu ver, é preciso saber quando e onde parar.

Nada contra as redes sociais, mas a meu ver, é preciso saber quando e onde parar.

Todos pareciam abduzidos, não estavam presentes, só o corpo ali, a alma vagando perdida por algum lugar irreal, ilusório. Lembrei-me daqueles filmes onde as pessoas comuns são controladas, hipnotizadas e subjugadas pelos interesses sempre malignos de alguns e a força boa que se dá conta disso é geralmente em pequeno número que descobre o que está acontecendo justamente por não se permitir entrar nesse jogo. Eles lutam e conseguem acordar uns poucos e então esse pequeno número alcança a vitória e liberta o restante do povo adormecido até então.

A vida é tão curta e, com certeza, é muito maior e vibrante quando vivida no mundo real, quando vivenciamos cada momento, quando trocamos olhares e palavras, às vezes seguidos de um abraço ou mesmo um sincero aperto de mãos.

As pessoas tem se queixado da falta de contato real e, no entanto, desperdiçam as oportunidades de conhecer novas pessoas, criar novos laços de amizade e quem sabe até um novo amor…

Nada contra as redes sociais, mas a meu ver, é preciso saber quando e onde parar. Então tomei uma decisão: da próxima vez cumprimento e se a pessoa levar um susto quem sabe assim acorda!