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A procrastinação é, em certa medida, algo normal. O problema é quando ela passa a atrapalhar.

(por Fernando Colella)

Quem nunca vivenciou um momento de angústia por se ver empurrando com a barriga alguma tarefa importante? Quantas vezes nos vemos paralisados para agir, mesmo sabendo que algo relevante precisa ser executado? Segundo especialistas, a tão temida procrastinação é, em certa medida, algo normal. O problema é quando ela passa a atrapalhar a vida de quem vive postergando o que deve ser feito. Quadros como estresse, vergonha e culpa são comuns em procrastinadores, que acabam sendo, também, frequentemente taxados de preguiçosos ou improdutivos.





Se você é coach e tem de lidar com um cliente que enfrenta esse tipo de problema, ou mesmo se você é uma daquelas pessoas que sofrem por deixar para depois atividades essenciais, uma boa forma de lidar com isso é começar identificando as causas da procrastinação. Segundo o estudo acadêmico de Piers Steel, intitulado, “The nature of procrastination: A meta-analytic and theoretical review of quintessential self-regulatory failure”, há quatro razões básicas pelas quais a maioria das pessoas procrastinam.

A primeira razão é a natureza da tarefa. Ações desagradáveis ou de baixa relevância para quem procrastina, muitas vezes acabam justificando o seu adiamento. Por exemplo, alguém que deixa de acordar cedo para ir à academia pode fazê-lo por não ver tanta importância ou urgência que justifique o comprometimento com esse objetivo. Muitas vezes, essa mesma pessoa não encontra tantas dificuldades em acordar cedo para ir a uma reunião com um cliente ou a outro compromisso profissional, mas posterga com facilidade objetivos pessoais como a prática de uma atividade física.

Não adianta assumir novos projetos ou responsabilidades se não houver um comprometimento pleno com as atividades necessárias para isso. Para esse tipo de procrastinação, o melhor a fazer é ter clareza dos objetivos envolvidos. Atividades chatas muitas vezes são necessárias para realizar metas maiores, e ter em foco o objetivo ao invés das tarefas é uma das principais estratégias para alcançar o sucesso. Uma dica é escrever em uma folha de papel todos os benefícios que determinado objetivo poderá trazer após concluído. Acordar cedo para praticar uma atividade física talvez não seja uma meta psicologicamente atraente para quem procrastina essa ação, mas trazer à consciência benefícios decorrentes disso, como levar uma vida mais saudável, ter maior disposição para as atividades diárias ou aumento da autoestima, pode fazer grande diferença para que se deixe de procrastinar.

A segunda causa da procrastinação está ligada à personalidade de quem adia as tarefas. Segundo o estudo de Steel, as características pessoais de um indivíduo também podem levá-lo a postergar suas ações. A boa notícia é que, embora não seja possível mudar a personalidade das pessoas, podemos controlar o entorno. Em outras palavras, é possível produzir um ambiente que torne inevitável deixar de fazer algo. Por exemplo, se alguém tem de realizar um trabalho e acaba se distraindo facilmente com e-mails ou redes sociais, pode desconectar-se da internet até concluir a tarefa. Sempre que o procrastinador tiver um impulso autosabotador, ele será lembrado de que deve se manter focado em sua atividade, já que não terá como recorrer à distração habitual.

Outra técnica que funciona bem nesses casos é a de assumir um comprometimento público. Pedir para que amigos ou familiares cobrem uma tarefa que você quer assumir tende a dar resultados, uma vez que não desejamos que outras pessoas se frustrem conosco. Dar-se uma penalidade em caso de falha ajuda a potencializar esse comprometimento. Essa é a base de alguns programas bem sucedidos, como os Vigilantes do Peso. Segundo um estudo publicado na revista médica The Lancet, participantes desses grupos de dieta tendem a perder duas vezes mais peso do que pessoas que recorrem a outros métodos de emagrecimento, graças ao seu sistema de comprometimento público entre os participantes, que envolve ainda recompensas e sanções.

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A grande característica da espécie humana que a diferencia dos outros seres vivos é a capacidade de fazer escolhas.

O terceiro aspecto que leva alguém a adiar suas ações envolve as expectativas desse indivíduo. Ou seja, conhecer o “caminho das pedras” para a realização de um objetivo dificulta a procrastinação, enquanto a incerteza do sucesso pode levar a ela. A principal coisa a ser feita neste caso é compreender que o mais difícil é começar, e o grande desafio será dar o primeiro passo. Uma dica para isso é utilizar a “regra dos 2 minutos”, inspirada no famoso livro “Getting Things Done” (no Brasil, “A Arte de Fazer Acontecer”), do guru de produtividade pessoal David Allen.

Allen sugere que uma tarefa que demore até 2 minutos para ser executada jamais seja postergada, devendo ser feita no mesmo instante em que aparece. A justificativa é que, para uma ação de rápida execução, não faz sentido gastar mais tempo e energia programando-a para depois. Imagine quantas tarefas podem ser concluídas rapidamente levando a cabo essa regra: uma resposta rápida a um e-mail, lavar o prato após uma refeição ou escolher a roupa para usar no dia seguinte, são exemplos de como muitas coisas podem deixar de ser adiadas com pouco tempo e esforço.

É claro que nem todas as ações podem ser concluídas em menos de 2 minutos. Mas é fato que qualquer uma terá os seus 2 minutos iniciais, e basta dar o primeiro passo se dispondo a utilizar esse pequeno instante de tempo para sair da zona de conforto. Escrever um artigo pode demorar vários minutos ou horas, mas bastam 2 minutos para começar escrevendo a primeira frase. Um livro pode demandar bastante tempo para ser lido, mas em apenas 2 minutos é possível concluir a primeira página. O desafio será comprometer-se com um primeiro passo curto e deixar as coisas fluírem a partir daí.

Por fim, a quarta razão pela qual as pessoas procrastinam é o medo do fracasso. Em geral, o medo que leva alguém a deixar de agir é consequência de um objetivo que pode parecer grande ou difícil demais. Em uma das mais importantes obras da filosofia moderna, o “Discurso do Método”, René Descartes escreveu que “uma tarefa deve ser dividida em tantas partes quantas forem necessárias para melhor poder resolvê-la”. Assim, definir metas menores dentro de um objetivo maior é uma boa maneira de planejar e motivar-se para fazer o que deve ser feito, facilitando o processo e enfrentando o medo de falhar.

É importante compreender que o medo é um dado natural, um mecanismo de defesa que pode ser fundamental em situações de crise ou incerteza. O prestigiado diretor de “Titanic” e “Avatar”, James Cameron, afirmou em sua TED Talk que “o fracasso é uma opção, mas o medo não”. Portanto, é preciso ter em mente algo que poucos param para refletir, mas que trata-se do óbvio: por mais assustadora que uma situação possa ser, a única escolha que nos dá a garantia do fracasso é a paralisia ou a desistência de seguir em frente. O medo de falhar não é um problema, e a sua ausência nada tem a ver com ser corajoso. Coragem é a capacidade de superar as adversidades e enfrentar o medo.

A grande característica da espécie humana que a diferencia dos outros seres vivos é a capacidade de fazer escolhas. Sendo assim, se agir é uma opção, deixar de fazê-lo também é. A verdade é que as decisões mais difíceis sempre serão aquelas que exigirão maior dedicação e coragem. A liberdade de escolher deve nos levar então a questionar: vale a pena o esforço? A resposta nem sempre é evidente, mas encerremos este artigo recorrendo ao grande filósofo Aristóteles para nos ajudar a refletir: “a coragem é a primeira das qualidades humanas, simplesmente porque garante todas as outras”. Boas escolhas!