ano novo

Quantos novos projetos são imaginados e velhos sonhos revividos nesta época?

(Por Fernando Colella) 

“O bom das segundas-feiras, do primeiro dia de cada mês e do primeiro do Ano é que nos dão a ilusão que a vida se renova… Que seria de nós se a folhinha marcasse hoje o dia 713.789 da Era Cristã?” (Mario Quintana)

Mais uma vez, nos encontramos às vésperas da entrada de um novo ano. O poeta gaúcho Mario Quintana soube definir esse instante com o brilhantismo que lhe era peculiar. A maior parte das pessoas vive no presente período do ano a “ilusão da vida que se renova”.  Quantos novos projetos são imaginados e velhos sonhos revividos nesta época? E o que de fato muda para a maioria de nós depois que o ano vira e a rotina de sempre é retomada? Quem nunca largou a sua “listinha de promessas de ano novo” esquecida no fundo de uma gaveta que atire a primeira pedra…


Não que marcos não sejam importantes. Pelo contrário! Porém eles não possuem sentido algum se tudo permanecer do mesmo jeito, se os velhos hábitos e comportamentos indesejados de sempre se mantiverem, se os primeiros passos para os grandes projetos almejados não forem dados. A grande relevância de um marco como esse é a de nos lembrar que o ano que chega é uma página em branco de nossa história pessoal, pronta para ser escrita com as tintas que escolhermos. E isso tem um caráter profundamente prático.

A diferença entre a lista de promessas abandonada e um ano pródigo em realizações é a mesma que ocorre entre teoria e prática. O educador Paulo Freire escreveu certa vez que “a teoria sem a prática vira ‘verbalismo’, assim como a prática sem teoria, vira ativismo. No entanto, quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade”. É sobre modificar a realidade que estamos tratando.

Somos mestres em teorizar sonhos, projetar cenários magníficos que jamais saem do campo das ideias. Desejamos muitas coisas importantes e acabamos fazendo muito pouco ou nada por esses anseios, por nós mesmos. Como se fosse ilícito sonhar, acabamos atropelados por um mar de demandas, obrigações, crenças, que filtram nossos sonhos e por vezes nos levam a estigmatizá-los como fantasias utópicas, delírios infantis incompatíveis com a chamada “vida real”. Uma vida da qual nos queixamos muitas vezes, justamente porque não contempla esses mesmos desejos. Por mais contraditório que pareça, raras são as ocasiões que nos lembramos que a maior parte de frustrações que sentimos resultam de nossas próprias decisões.

metas ano novo

Mas temos também uma notável capacidade de mergulhar em uma prática inconsequente, que nos leva a executar todas as tarefas do dia a dia no “piloto automático”. Dificilmente grandes objetivos podem ser conquistados sem um planejamento adequado, porém comumente nos deixamos levar para um lugar que não sabemos ao certo, simplesmente porque escolhemos abrir mão do controle de nossa vida. Estar no controle não significa possuir uma capacidade mágica de dominar as contingências, mas sim deixar de exercer o nosso maior ato de liberdade, que é poder fazer as próprias escolhas e nos responsabilizar por elas.

Lembre-se que não existem fórmulas prontas ou dicas infalíveis. Deixemos isso para os autores de autoajuda, e cuidemos daquilo que nos cabe: comprometimento com a mudança. Se realmente queremos fazer deste momento um marco para uma vida melhor vivida, temos de fazer um pacto conosco, compreendendo qual é o preço que temos de pagar para sair da zona de conforto. Assumir o protagonismo da própria existência é trabalhoso, pois envolve planejamento e ação, teoria e prática. Fazer do ano que chega um período pleno de realizações significa superar a “ilusão da vida que se renova”, como poetizou Quintana, recriando a realidade que almejamos rumo à práxis transformadora da realidade descrita por Freire.

Que tal refletir por um instante: o que precisa acontecer no próximo ano, para que no futuro você se lembre de 2014 como o melhor ano que já vivenciou? Pense nas diferentes áreas de sua vida: aspecto pessoal, trabalho, relacionamentos, qualidade de vida, etc. Imagine tudo que pode ocorrer ao longo de um ano, que dependa exclusivamente de suas ações e escolhas, para que se sinta pleno em todas as dimensões de sua existência. Por fim, seja sincero consigo mesmo neste: qual deve ser o primeiro passo a ser dado para que possa cumprir com essas metas até o final do ano que chega? O que pode ser feito desde já para dar concretude aos seus mais relevantes anseios?

Que 2014 seja não apenas um feliz ano novo, mas o mais feliz e o mais novo dos anos. E que possamos ao longo do período celebrar como uma vitória cada passo rumo à vida que realmente queremos e merecemos.

Boas festas!