Conhecer personalidade

Quanto mais inteligente for a pergunta, mais assertiva deverá ser a resposta.

(Por Fernando Colella)

Um dos questionamentos mais comuns que recebo em minhas palestras e workshops é a respeito do papel de um coach. Embora essa fascinante profissão se torne mais conhecida e estejamos assistindo uma chegada substancial de novos profissionais ao mercado a cada dia que passa, é justamente a popularização dessa atividade que gera certa confusão. Alguns me perguntam se poderiam passar por um “processo terapêutico” baseado em coaching. Explico que o coaching não é terapia, pois nossa atividade não está relacionada a questões de saúde mental e nem investiga o passado como fazem algumas linhas terapêuticas; pelo contrário, trabalhamos ações no presente visando objetivos futuros. Há ainda aqueles que pedem para que eu lhes “ensine” a alcançar o sucesso em suas metas. Esclareço que esse não é o papel de um coach, que não deve comportar-se como um conselheiro ou consultor ensinando como fazer isso ou aquilo. “Mas afinal”, me perguntam, “como procede então um coach?”

Respondo que o coach não é um consultor ou treinador, mas basicamente um “perguntador”. Nossos clientes desejam respostas, mas elas não podem ocorrer se não estiverem associadas a perguntas. E quanto mais inteligente for a pergunta, mais assertiva deverá ser a resposta. O papel de um profissional de coaching é esse: perguntar, provocar. “Provocar”, aliás, é uma palavra que vem do latim: vocare significa falar, chamar, enquanto o prefixo pro significa movimento a favor. Provocar então é a perfeita definição daquilo que faz o coach com o seu cliente: gerar um movimento de mudança através da fala, de suas perguntas. Perguntas bem colocadas induzem à reflexão e permitem novas respostas, soluções não pensadas anteriormente. Assim, dúvidas são esclarecidas e novas possibilidades surgem no horizonte.

Essa técnica não tem nada de nova e remete ao filósofo grego Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.), que acreditava que todos possuem a capacidade e o potencial de procurar e encontrar respostas por si próprios. Para o filósofo, essas respostas viriam através de perguntas perspicazes, que se davam em dois momentos: ironia, em que o interlocutor de Sócrates reconhecia a sua ignorância, e maiêutica, em que progressivamente questões simples davam luz à respostas complexas e determinadas. Sócrates utilizava um antigo aforismo grego para motivar seus diálogos, “conhece-te a ti mesmo”, inscrição eternizada no pátio do Templo de Apolo, na cidade de Delfos. Nesse local, pessoas buscavam conhecimentos do presente e futuro consultando o célebre Oráculo de Delfos, por meio de sacerdotisas. Foi o oráculo que afirmou que Sócrates era o mais sábio dos homens, não por aquilo que sabia, mas por ser o único que reconhecia não saber de nada.

Nesse sentido, podemos dizer que saber-se ignorante das respostas que procuramos é um verdadeiro ato de sabedoria. Esse é o passo primeiro de quem coloca-se a disposição de ser perguntado, uma ação que exige humildade intelectual e, por isso mesmo, coragem. Muitas pessoas não aceitam serem perguntadas, porque isso as obrigaria a dar respostas, respostas que muitas vezes elas não querem reconhecer. Há respostas dolorosas, respostas trabalhosas, respostas assustadoras. Mas aquele que foge das perguntas é justamente o que se afasta do “conhece-te a ti mesmo”; é quem tem medo de mudança, porque mudar significa reconhecer e assumir o que tem de ser mudado; é quem se desvia do sucesso, pois este exige comprometimento com a transformação, coragem de fazer diferente e humildade intelectual.

filosofia reflexões

O coach não é um filósofo, mas assemelha-se a este na função de provocar questionamentos e instigar reflexões.

O coach não é um filósofo, mas assemelha-se a este na função de provocar questionamentos e instigar reflexões através de perguntas bem formuladas. E o coachee certamente é alguém valoroso por colocar-se na disposição de autoconhecer-se para mudar. Mas ainda mais difícil do que fazer perguntas a alguém ou responder a um interlocutor, é ter a capacidade perguntar-se e a coragem de responder a si próprio. Na maior parte das vezes, desistimos dos nossos sonhos ou tomamos rumos indesejados na vida simplesmente porque, levados por um mar de informações e acontecimentos, deixamos a vida nos levar, sem parar para refletir, para questionar-se, perguntar-se.

Gostaria de encerrar este artigo convidando-o a parar por um minuto para uma rápida reflexão: quantas vezes na vida você tomou decisões importantes ou seguiu caminhos definitivos sem antes parar, ainda que brevemente, para questionar-se? Consegue se lembrar de situações em que a falta de uma ponderação adequada tenha sido determinante para que não alcançasse os resultados pretendidos? Que outros rumos você poderia ter trilhado ou o que poderia ter feito diferente caso tivesse o hábito de perguntar-se, como um coach de si próprio? É verdade que ficar pensando “no que poderia ter sido” pode ser algo angustiante, mas esse, por si só, já é um exercício de autoconhecimento. Aqui não estamos fazendo algo diferente do que a prática do perguntar-se. E já que ainda temos um futuro de possibilidades, que tal aproveitar o momento para fazer-se mais uma pergunta: “o que eu posso fazer de diferente daqui para a frente para conhecer mais a mim mesmo, sem me perder de vista diante de tantos objetivos e decisões que ainda deverei tomar pela vida afora?”. Boas respostas!