Podemos dizer que a função da linguagem é descrever a realidade.

Podemos dizer que a função da linguagem é descrever a realidade.

(por Fernando Colella)

“Os limites da minha linguagem significam os limites do mundo”.

(Ludwig Wittgenstein, em “Tractatus Logico-Philosophicus”, 1929)

O austríaco Ludwig Wittgenstein foi um dos mais importantes filósofos do século XX. A relevância de sua obra está, entre outros aspectos, no esclarecimento de que a representação do mundo depende das condições lógicas do pensamento e da linguagem de cada indivíduo. Em outras palavras, podemos dizer que a função da linguagem é descrever a realidade, porque em última análise nada pode ser concebido fora da linguagem.

Experimente por um instante lembrar-se de algo que lhe aconteceu ontem, descrever uma ideia ou expressar uma crença que possui. Claramente são coisas que podem ser feitas, sem dificuldades, por qualquer pessoa funcional. Mas tente executar as mesmas ações sem fazer uso da linguagem, ou sem pensar em palavras. É simplesmente impossível! A linguagem que usamos na vida cotidiana, na comunicação com os outros ou mesmo conosco, indica como experienciamos o mundo e de que forma somos impactados por ele.

Se o sentido da linguagem é descrever ou representar algo que acontece na realidade, temos ainda de admitir que nem sempre ela pode dar conta de ser esse espelho do mundo de forma absolutamente precisa. Se pensarmos que as palavras são signos que servem para reproduzir ideias, e que para que a linguagem verbal ou escrita funcione bem, todos devem concordar sobre o significado das palavras que a compõem, o que pensar quando constatamos o grande desacordo de interpretações existente no uso cotidiano da linguagem? Tente perguntar à diferentes pessoas o que elas entendem por palavras como “respeito” ou “amor”,  note que dificilmente encontrará algum consenso para definir termos tão corriqueiros como esses na comunicação habitual.
E é neste ponto que encontramos os limites da linguagem e consequentemente do nosso mundo, uma vez que este só pode ser descrito por ela. No universo do coaching e do desenvolvimento pessoal, podemos chamar de distorções cognitivas alguns aspectos particulares de ideias ou experiências (geralmente “negativas”) que damos mais peso e foco do que outras, em função de interpretações que fazemos na tentativa de capturar pensamentos, ideias e caracterizar o que vemos a nossa volta por meio do uso das palavras.
É comum perdermos um sentido de compreensão mais profunda dos fatos por meio de generalizações, de exclusões seletivas ou porque, simplesmente, usamos um número limitado de palavras para tentar descrever infinitas possibilidades de nossa experiência. Assim, muitas vezes, somos vitimados por um sofrimento desnecessário e tomamos atitudes negativas, simplesmente porque acabamos “perdidos na tradução” da linguagem conforme a significamos.

 

E, verdade seja dita, se há boas razões para a humanidade ter chegado ao atual estágio evolutivo e tecnológico, sem dúvida a sofisticação de nossa comunicação está entre elas.

E, verdade seja dita, se há boas razões para a humanidade ter chegado ao atual estágio evolutivo e tecnológico, sem dúvida a sofisticação de nossa comunicação está entre elas.

Todos nós fazemos isso de alguma forma, consciente ou inconscientemente. Afinal, nossas formas de expressão podem ser imperfeitas, mas são as melhores que temos. E, verdade seja dita, se há boas razões para a humanidade ter chegado ao atual estágio evolutivo e tecnológico, sem dúvida a sofisticação de nossa comunicação está entre elas. O importante aqui não é criticar a linguagem que utilizamos, mas que procuremos desenvolver a consciência de nossas distorções cognitivas proporcionadas por ela, e que as vejamos como uma boa oportunidade de desafiar nossos pensamentos e crenças limitantes sobre nós mesmos, sobre os outros e o mundo.
Para que não fiquemos apenas na teoria, que tal nos colocar a prova para identificar nossas interpretações negativas mais corriqueiras e como elas interferem em nossas crenças e atitudes? Segue uma breve lista de alguns exemplos de distorções cognitivas mais comuns. Quais delas podem se aplicar a você?
 Tudo ou Nada

  • Se eu não fizer isso de forma perfeita, então sou um fracasso!
  • Se algo der errado, todo o meu trabalho terá sido uma completa perda de tempo!
  • Se eu não estiver 100% preparado, então é melhor nem começar.


Rótulos

  • Se eu não fizer isso, serei um covarde!
  • Se ele pensa diferente de mim, é um idiota!


Generalização

  • Eu nunca vou conseguir isso.
  • Ele sempre faz a mesma coisa.


Exagero

  • Se eu me esquecer do aniversário de casamento, minha esposa vai me deixar.
  • Se eu não estudar 8 horas por dia, não passarei no vestibular.


Raciocínio Emocional

  • Só posso ser um egoísta por tê-la magoado.
  • Evidentemente sou um fracassado por meu empreendimento não ter dado certo.


Ver apenas o negativo

  • Isso não conta, qualquer um poderia ter feito isso.
  • Não importa que eu faça um ótimo trabalho se as vendas não andam boas.


Leitura de pensamento

  • Meu marido deveria saber o que estou sentindo.
  • Meu chefe deveria saber que eu desejo um aumento.


Filtros Mentais

  • O bolo ruim estragou minha festa de aniversário.
  • Tive bons relacionamentos, mas agora estou sozinho, logo minha vida amorosa é um fracasso.


Conclusões infundadas

  • Se eu tivesse me formado em outra área, seria mais feliz.
  • Meus filhos têm dificuldades porque não fui uma boa mãe.
  • Ela não me deu bom dia porque não gosta de mim.

Boa reflexão!