Para Epicuro, a nossa realização pessoal pode ser proporcionada por coisas bem simples e baratas, como estar o maior tempo possível na companhia de amigos.

Para Epicuro, a nossa realização pessoal pode ser proporcionada por coisas bem simples e baratas, como estar o maior tempo possível na companhia de amigos.

(por Fernando Colella)

O que faz você feliz?

A pergunta, propagada por inúmeros anúncios publicitários e livros de autoajuda, sintetiza um dos maiores desafios da vida de qualquer pessoa: o de possuir uma existência feliz e repleta de significado. Não há quem não tenha o desejo de alcançar a realização em todos os âmbitos da própria vida. Por outro lado, se sairmos por aí perguntando o que significa “ser feliz”, veremos que dificilmente será possível encontrar algum consenso nas diferentes respostas.

Felicidade é uma demanda pessoal ligada aos mais essenciais valores individuais e aos propósitos de cada um. Até mesmo o criador da psicanálise Sigmund Freud, que acreditava que os homens não são capazes de gozar de um contentamento pleno, afirmou em seu texto “Mal-estar na Cultura”, que “a felicidade é um problema individual”, e que “cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”.

É por isso que, ao longo da história, filósofos, religiosos e cientistas nunca se cansaram de tentar decifrar “o que faz você feliz”. Mas poucos produziram conteúdos tão interessantes quanto um grego nascido na ilha de Samos em 341 a.C., chamado Epicuro. Diferentemente da maioria dos pensadores de sua época, Epicuro produziu uma filosofia muito mais prática do que teórica, essencialmente voltada para a felicidade. É fascinante que ainda hoje possamos discutir suas ideias, já que os mais de trezentos livros escritos por ele se perderam ao longo dos séculos. A maior parte de seus pensamentos se manteve graças a comunidades epicuristas espalhadas pela Europa e que até hoje vivem de acordo com os princípios desse importante filósofo da antiguidade.

Na origem do epicurismo há um princípio básico: nós não sabemos bem o que nos faz felizes, e por não entendermos bem nossas necessidades, acabamos desejando aquilo de que não precisamos. Em outras palavras: é em função do desconhecimento de nós mesmos que somos atraídos por bens materiais, na esperança de que eles nos tragam felicidade. Para Epicuro, a nossa realização pessoal pode ser proporcionada por coisas bem simples e baratas, como estar o maior tempo possível na companhia de amigos, ser livre para escolher o que é mais importante e ter uma vida bem analisada, criando oportunidades para refletir sobre os melhores rumos que podemos tomar. Vamos explorar um pouco mais cada um desses três aspectos.
O primeiro elemento causador da felicidade, segundo Epicuro, é ter amigos. Ele acreditava tanto nisso que chegou a fundar sua própria escola filosófica, chamada “O Jardim”, e lá residia com todos os seus amigos. E não é preciso muita reflexão para sabermos, por experiência própria, o quanto estar com amigos queridos nos proporciona alegria e satisfação. De fato, um dos mais importantes nomes da atualidade em pesquisas sobre a felicidade, o psicólogo americano Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia (EUA), concluiu que felicidade é na verdade a soma de três coisas diferentes: prazer, engajamento e significado. Em seu livro “Felicidade Autêntica”, ele afirma que ter amigos preenche esses três critérios para permanecer feliz, de acordo com sua pesquisa. Então, antes de prosseguirmos, que tal realizarmos uma rápida reflexão sobre nossa vida social, a partir das questões abaixo?

  • Você se relaciona bem com seus amigos? Participa ativamente de seu grupo social?
  • Você é do tipo que gosta de ver a casa sempre cheia de amigos ou prefere alguns poucos e confiáveis?
  • Tem tantos amigos quanto gostaria? Sai com eles tantas vezes quanto queria?
  • Como você avalia hoje a sua vida social?

O segundo elemento que nos traz a felicidade, de acordo com a filosofia epicurista, é a liberdade. Para obtê-la, Epicuro e seus amigos se estabeleceram em uma comunidade própria afastada de Atenas, onde poderiam ser autossuficientes e livres de empregadores tiranos e políticos da cidade. O mais importante neste caso era que pudessem tomar livremente as próprias decisões, direcionado suas vidas para o que era mais importante. Em outras palavras, tratava-se de assumir o controle de suas próprias vidas.

É importante ressaltar que estar no controle não significa possuir um poder mágico de direcionar os eventos que ocorrem a nossa volta, mas sim de não abrir mão das próprias escolhas. Afinal, quantas pessoas simplesmente “levam a vida”, como se estivessem em um barco à deriva, sem nenhum rumo definido, simplesmente porque abrem mão de escolher o que é mais relevante? Não basta saber onde não queremos estar, mas sobretudo para onde desejamos seguir. Sendo assim, reflitamos um pouco mais ao considerar algumas das seguintes questões:

  • Se você pudesse voltar no tempo, em momentos passados de sua vida, que diferentes escolhas faria?
  • Se pudesse escolher apenas o que é mais importante, o que você decidiria?
  • O que pode ser feito, e que só dependa de você, para que se sinta com mais autonomia sobre suas decisões e caminhos?
  • Quais os passos mais importantes a serem dados em sua vida daqui para frente?

A terceira fonte geradora de felicidade é ter uma vida bem analisada, ou seja, com tempo para reflexão. Essa era a principal atividade de Epicuro, uma vez que ele era um filósofo. Mas sua sugestão é que essa prática fosse adotada por todas as pessoas. Em sua época, ele já se preocupava em distanciar-se das distrações do mundo que pudessem afastá-lo das melhores escolhas, das soluções mais criativas e sábias para resolver problemas e planejar a vida. Se considerarmos o mar de informações e eventos que nos bombardeiam hoje em dia, talvez essa prática possa parecer ainda mais urgente. Quantos erros poderíamos ter evitado ou o quão mais bem sucedidos poderíamos ser em diferentes âmbitos, se tivéssemos reservado mais tempo para refletir e ponderar nossas opções e decisões?

Se você tivesse mais tempo para pensar sobre importantes decisões do passado, como poderia ter sido mais assertivo?

Se você tivesse mais tempo para pensar sobre importantes decisões do passado, como poderia ter sido mais assertivo?

Reservar algumas horas ou minutos só para pensar pode parecer algo irreal em um mundo com tantas demandas como o nosso, em que nos vemos sempre ocupados e acreditamos não ter tempo para nada. No entanto, pode ser útil tomarmos por referência Jeff Weiner, um dos executivos mais poderosos do mundo da tecnologia. Como CEO do LinkedIn, não lhe faltam razões para que se mantenha ocupado com uma infinidade de compromissos e responsabilidades que tomam muito do seu tempo. No entanto, Weiner costuma afirmar que a ferramenta de produtividade mais importante que ele utiliza é “agendar um tempo para não fazer nada“. Segundo ele, reservar momentos livres ao longo do dia lhe dá o tempo que precisa para pensar estrategicamente sobre sua empresa como um todo. Então vamos ponderar:

  • Se você tivesse mais tempo para pensar sobre importantes decisões do passado, como poderia ter sido mais assertivo?
  • Se você tivesse meia hora por dia para pensar estrategicamente, o que priorizaria?
  • Caso ganhasse mais de 10 horas na semana para planejar sua vida e carreira, o que mais você poderia realizar?
  • Como poderia organizar melhor o seu tempo, eliminando os desperdícios, para ganhar momentos de reflexão e análise?

E se, de acordo com o epicurismo, para sermos felizes precisamos apenas equilibrar em nossa vida os amigos, a liberdade e o hábito da reflexão, o que poderia ser a causa da infelicidade? Epicuro elegeu como inimigo o comércio, pois este criaria associações veladas entre o que quer nos vender e nossas verdadeiras necessidades. E é por isso que a publicidade utiliza o anseio comum por felicidade para vender toda a sorte de produtos, estimulando os hábitos de consumo. O que queremos de fato? Rir com os amigos que bebem juntos no comercial da TV ou a cerveja que ele anuncia? Desejamos a liberdade para viver em segurança e harmonia com quem amamos ou aquele empreendimento imobiliário que garante proteção e serviços 24 horas para toda a família?

De acordo com o pensamento epicurista, são esses desejos substitutivos que nos confundem a respeito de nossas reais necessidades e que nos fazem acreditar que, para sermos felizes, o que precisamos é basicamente ter muito dinheiro para comprar tudo o que quisermos. E embora Epicuro não fosse contra o dinheiro, ele se opunha totalmente a essa ideia. Seja como for, podemos dar razão ao filósofo quando defende que uma vida refletida pode nos ajudar a encontrar meios eficazes para que nos tornemos mais felizes. E é exatamente por isso que jamais devemos deixar de questionar:

O que faz você feliz?