perspectivas pessoais

Jamais nos conformamos com a finitude da vida, e superar a efemeridade da existência deixando no mundo uma marca que nos permita ser reconhecidos

(Por Fernando Colella) 

Na última semana, uma data importante passou praticamente despercebida da maior parte da mídia. Há 33 anos, no dia 8 de dezembro de 1980, um homem chamado Mark Chapman privou o mundo do talento de John Lennon com cinco disparos por arma de fogo em frente ao Edifício Dakota, onde morava o ex-beatle na cidade de Nova York. Anos mais tarde, o assassino declarou: “Tomei uma decisão terrível de acabar com a vida de uma pessoa por motivos egoístas. Achava que ao matar John Lennon me tornaria alguém e, no entanto, acabei virando um assassino, e assassinos não são alguém”.

Chapman não ganhou a notoriedade que pretendia. Hoje poucos se lembram do triste homem que passa o resto de seus dias cumprindo pena de prisão perpétua no presídio de Attica, em Nova York. John Lennon, ao contrário, permanece vivo em nossa memória. Sua obra e legado foram eternizados e, ainda que não esteja mais entre nós, continuará sempre sendo percebido como um artista profundamente idealista, que com suas letras e movimentos de protesto, tornou-se uma das mais importantes vozes de seu tempo em defesa da paz e da justiça social.

Esta semana também foi marcante por outra morte, desta vez amplamente divulgada por todos os veículos de imprensa no dia 5 de dezembro. Nelson Mandela, um das mais importantes personalidades do século XX, foi de líder guerrilheiro rebelde na juventude à presidente da África do Sul e Prêmio Nobel da Paz em 1993. Madiba, como era conhecido por seu povo, dedicou toda a sua vida à causa da justiça racial. Após a prisão por subversão devido à sua luta contra o regime segregacionista do Apartheid, sofreu um duro julgamento entre 1963 e 1964, correndo sério risco de pena de morte. Na ocasião, fez um famoso discurso à corte:

“Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Cultivei o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. Esse é um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”. Após 27 anos de prisão, articulou a refundação de seu país tornando-se o seu primeiro presidente negro. Em uma época de ânimos acirrados e uma forte sensação de revanchismo entre negros e brancos, Mandela foi uma voz moderada e pacificadora, convertendo-se em grande promotor de uma democracia multirracial.

caminho a seguir

Nossos mais relevantes desejos, sonhos e metas estão associados a nossos propósitos

Nelson Mandela e John Lennon não foram apenas dois grandes protagonistas da contemporaneidade. Foram líderes inspiradores que tinham em comum um forte senso de propósito. Ao contrário de seus opressores, nunca escolheram o caminho mais fácil, e sofreram as dores e consequências por sua luta. Ainda assim, seus nomes permanecerão gravados na história justamente por isso. A grande diferença de ambos para a maioria das pessoas reside justamente na duradoura obra que realizaram, consequência direta dos sólidos princípios que sempre perseguiram e jamais abandonaram. O legado deixado por eles permitirá que continuem sendo lembrados e percebidos como referência e inspiração, e não apenas em suas respectivas áreas de atuação.

De certa forma, trata-se de um tipo de imortalidade. O filósofo George Berkeley dizia que “ser é ser percebido”. Jamais nos conformamos com a finitude da vida, e superar a efemeridade da existência deixando no mundo uma marca que nos permita ser reconhecidos, é um de nossos grandes anseios. Este forte desejo é capaz de levar alguns homens como Chapman a cometerem tristes loucuras, e outros como Lennon e Mandela a serem amados e celebrados por sua grandeza, por não aceitarem o passivo papel de testemunhas da história, mas de protagonistas dela.

Convido-o a refletir por um instante se tais papéis poderiam ser assumidos por pessoas que não carregassem consigo um forte propósito de vida. Será que esses dois grandes personagens poderiam ser reconhecidos como tal se não tivessem ciência de sua missão no mundo? Talvez a maior lição a ser aprendida desses líderes é a do não conformismo com um estado de coisas indesejáveis e proatividade voltada à realização de seus mais profundos ideais. E se, de alguma forma, você se sente inspirado por pessoas como Lennon e Mandela, talvez esteja neste ponto se perguntando sobre os seus próprios ideais. Quantas vezes já se questionou sobre o seu papel no mundo? Quantas vezes se perguntou sobre o que pode ser feito para que você não passe despercebido pela vida, deixando um importante legado que seja sua marca pessoal?

Este é um tipo de reflexão que um coach de vida deve estimular seu cliente a fazer, mas mais do que isso, é um autoquestionamento essencial para qualquer pessoa que não deseja viver uma vida vã no piloto automático, passando por ela sem percebê-la, ou pior, sem ser percebido. Nossos mais relevantes desejos, sonhos e metas estão associados a nossos propósitos. Não conhecê-los pode implicar em uma vida sem rumo, sem controle, sem graça e sem deixar um legado para quem virá depois.

Pois bem, quais são os seus propósitos e princípios? Deixo algumas perguntas para ajudá-lo a pensar a respeito. Proponho que as responda com a máxima sinceridade, ponderando com tempo e cuidado. Aqui não cabem filtros ou juízos pré-concebidos, trata-se apenas de um simples exercício de autoconhecimento. Apenas siga o seu coração em cada resposta. Propósitos não surgem magicamente, pois envolvem questões pessoais e subjetivas. Porém, reflexão, sentimento e sinceridade são bons elementos que, combinados, podem trazer novas percepções e descobertas sobre si mesmo e seus possíveis caminhos.

1. O que você e só você pode fazer?

2. Como você pode usar seus dons e talentos para contribuir com o mundo ou sociedade do qual faz parte?

3. Se você tivesse todo o tempo e dinheiro do mundo, como você o utilizaria?

4. O que você faria se soubesse que não falharia?

5. O que mais o orgulha em si mesmo, ou do que mais gostaria de se orgulhar?

Se chegou até aqui e preocupou-se em pensar a respeito, parabéns por sua busca! O conhecimento de seus propósitos é uma demanda de pessoas que realmente se preocupam em fazer a diferença no mundo. Talvez neste ponto você tenha identificado certas coisas realmente importantes que, se realizadas ou buscadas, podem conferir mais sentido à sua vida e apontar para novas possibilidades. E neste caso, será que já existe um primeiro passo que possa ser dado desde já para que se coloque mais alinhado a seus propósitos? Que tal não esperar mais para começar a fazer a diferença desde já? Bons insights!