DE PAPO COM A MONJA COEN

Nem sei bem o porquê, porém aceitei o convite. E de repente estava de cara com uma monja, minha mente se recusava a acreditar que existisse uma monja que não fosse o produto da mídia. Mas existe sim. Após 12 anos morando no Japão, com a voz compassada e mansa, sem perder a potência, exibindo uma careca absurdamente brilhante e montada na indumentária.

Entendi que aquela palestra sobre negócios, liderança, paz e amor seria quase inusitada se não fosse a mente surfar no contraponto das lembranças de “O Monge e o Executivo”. Mas decidi que era necessário baixar minha régua para fazer valer o tempo investido ali, afinal, eu fora convidado por uma executiva que auxiliou na administração do evento.

Apesar de umas duas palavras fora de contexto, por erro de palavra e não de pensamento, os números apresentados foram interessantes, mas sem a apresentação de fontes, o que reduz minha aceitação. Um deles é que apesar dos rumores, o mundo está 6% por cento menos violento que tempos passados, porém o acesso às informações e bombardeios da mídia chegaram a aumentar em 600%. Sabia desse aumento, mas não que chegava a este absurdo. E isso explica muita coisa.

Outro ponto que quero destacar foi minha quebra de paradigmas pessoais quanto à meditação. Eu que sempre busco respirar pelo diafragma, por força da profissão de comunicador de fala, reaprendi a respirar pelo abdômen, numa aula expressa, que aqui busco repassar.

Ao fazer o exercício é preciso estar sentado, numa posição em que a cervical, pedaço da coluna que fica no pescoço, esteja em linha reta e que o crânio esteja bem encaixado. Estranhamente nunca tinha pensado no encaixe do meu crânio na base da coluna. Imagino que nem você. Mas é exatamente esse o segredo. Sem deixar o queixo para cima ou para baixo, é que se inicia o tal exercício de respiração. Aprendi também que gente de nariz empinado, vez por outra sente dor na área do pescoço. Senti uma pequena e involuntária vibração de alegria.

DE PAPO COM A MONJA COEN

Respira-se profundamente… Sem encher os pulmões, sem forçar. O segredo está na saída do ar. Solte-o lentamente, mais e mais, até o final e forçando a liberação do último fragmento do ar. Isso cansa. Repita a operação mais duas vezes…

Meditar não é relaxar. E a musiquinha de fundo é só para iniciantes que possuem dificuldade em parar um pouco e curtir o seu momento. Comprei ainda a ideia de que é neste ponto de equilíbrio meditativo que você ouve uma sonoridade própria do mundo, você se sente conectado com tudo o que existe.

Nunca tinha entendido isso. Nos filmes de kung fu falavam em esvaziar a mente. A Monja disse que você só esvazia a mente quando está morto. Fiquei mais tranquilo com a minha incompetência em deixar a mente liberada para o nada. Ao contrário disso, quando se entra na respiração cadenciada, o que você vê são as cenas do seu dia passando por você como se fosse uma recapitulação. Você acaba entendendo melhor o que se passou, os sentimentos e as atitudes.

Nunca havia curtido meditação, mas o fato é que pra mim, foi uma experiência de tranquilidade que pode surtir alguns efeitos mais práticos, como o equilíbrio das batidas do coração, pressão arterial e claro, tomada de algumas decisões. A monja afirmou que a mente precisa de menos água para funcionar, o que faz irrigar o restante do corpo com mais intensidade. É fato. O que ela não disse é que para funcionar adequadamente, o sangue precisa irrigar os neurônios, levando água, nutrientes e oxigênio, em escalas que vão de 25 a 40% de tudo o que a gente ingere.

Após a palestra apresentei alguns resultados de coaching com indígenas que a deixaram bem entusiasmada, dentro daquele entusiasmo de monja. Sinto que poderíamos conversar mais, porém de alguma forma, estar perto dela deixou de ser uma experiência comum, e valeu cada minuto do tempo investido naquela palestra e depois em um bate-papo. Até a próxima, monja Coen.