Responsabilizar os filhos por qualquer clima ruim entre o casal é distorcer o que de fato ocorre.

Responsabilizar os filhos por qualquer clima ruim entre o casal é distorcer o que de fato ocorre.

(Por Mariana Viktor)

“Se você está infeliz no casamento, não culpe o parceiro, mas os seus filhos. É o que sugere uma pesquisa feita por cientistas da Open University, no Reino Unido”.

Esse é o parágrafo inicial de uma matéria publicada recentemente pela revista Exame, e que me fez pensar muito.

Primeiro, na reação dos casais felizes que têm filhos ao ler a conclusão dos cientistas. É impossível deparar-se com uma pesquisa dessas – abalizada por uma universidade – sem sentir o chão ceder sob os pés e uma nuvem cinzenta se formar sobre a cabeça, anunciando que a felicidade conjugal está com os dias contados. E pior: a culpa será dos seus amados filhos.

Depois, pensei no que sentiram os casais infelizes com filhos – um terror! E, por fim, pensei nas crianças.

Todos crescemos com “suficientes” crenças limitantes. Mas as crianças pós-essa-pesquisa terão de acrescentar outra crença nociva e muito pesada: a de serem culpadas por estragar a felicidade (e até o desejo sexual) dos pais. É muita responsabilidade para quem acabou de chegar ao mundo! Crianças são crianças. É redundante, mas necessário lembrar que elas não têm a maturidade que temos – e ainda têm menos defesas emocionais e cognitivas para proteger-se dessa culpa.

Responsabilizar os filhos por qualquer clima ruim entre o casal é distorcer o que de fato ocorre: uma dificuldade de interação entre os parceiros.

Outra informação preocupante do estudo é sugerida na mesma frase: “Se você está infeliz no casamento, não culpe o parceiro, mas os seus filhos”.

Nesse caso, a culpa é sempre do outro: do parceiro(a) ou dos filhos. A responsabilidade nunca será “minha” – o que sugere que tenho consciência dos erros que cometo e optei por infernizar minha própria vida e a de quem me cerca. E, nesse caso, quem é o “outro”, o tal que é sempre o culpado, se não sou eu e nem você?

Bom senso e autoconsciência são o segredo de tudo.

Bom senso e autoconsciência são o segredo de tudo.

Não estou em Londres e não represento uma grande universidade, mas a prática diária como coach de relacionamento mostra coisas que desmentem a pesquisa:

1 – O óbvio: não existem culpados, mas responsáveis. No plural mesmo, porque se o relacionamento afetivo está causando infelicidade, os dois têm alguma participação no problema, mesmo que não percebam a dinâmica da interação e nem tenham consciência de como contribuem para aumentar os atritos – e nisso o processo de coaching pode ajudar e ajuda muito!

2 – Atendo casais com e sem filhos, e o que percebo é que as dificuldades de convívio dos casais com filhos existiriam mesmo se os filhos não existissem – porque são dificuldades pessoais. Quem é impaciente, por exemplo, ficará mais impaciente com uma criança cheia de energia correndo pela casa, mas a impaciência está ali – a presença da criança serve para evidenciar a necessidade urgente de a pessoa trabalhar essa característica.

4 – Não necessariamente “os casais sem filhos dedicam mais tempo à manutenção do relacionamento. Conversam mais abertamente, apoiam mais o parceiro e dizem ‘eu te amo’ com mais frequência”. Atendo casais sem filhos que procuraram auxílio justamente porque não aprenderam a dialogar, brigam constantemente, não conseguem superar as mágoas e desconhecem como colocar em prática o apoio mútuo – o que acaba afetando até mesmo o desejo sexual.

Então, creio que bom senso e autoconsciência são o segredo de tudo. E questionar certas pesquisas também.